Opinião

China caminha para se tornar a líder da nova ordem automotiva

Montadora chinesa BYD ultrapassou a Ford em agosto e já e quarta maior fabricante de automóveis no mundo


POR André Cintra

Publicado em 23 de outubro de 2023


Nem as norte-americanas Ford ou General Motors, nem a alemã Volkswagen ou a japonesa Toyota. Tudo indica que a nova ordem da indústria automotiva será liderada pela montadora BYD (Build Your Dreams), alçando a China à condição de futuro centro global do setor.

Os chineses já estão à frente em termos de produção de automóveis. Em 2022, de cada três veículos fabricados no mundo, um foi produzido em alguma planta fabril da China (seja de montadora nacional, seja de alguma multinacional estrangeira). De um total de 85 milhões de veículos emplacados no Planeta, 27 milhões tiveram mão de obra chinesa.

Uma comparação com o Brasil realça a grandeza desses números. “A capacidade brasileira de produção é de 4,5 milhões de automóveis por ano, mas os emplacamentos anuais são da ordem de apenas 2,3 milhões. Nosso pico, alcançado em 2013, foi de 3,7 milhões de veículos”, registra Alex Custodio, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Betim (MG) e vice-presidente da Fitmetal (Federação Interestadual de Metalúrgicos e Metalúrgicas do Brasil). Mesmo com um parque industrial automotivo mais recente, a China produz quase 12 vezes mais automóveis do que o Brasil.

Curiosamente, uma das esperanças do setor no País para revigorar o setor é, justamente, a BYD. Com apoio dos governos federal, estadual e municipal, a montadora chinesa está de chegada ao Brasil, onde vai ocupar o terreno da antiga fábrica da Ford em Camaçari (BA), fechada em 2021. A pedra fundamental do futuro complexo foi lançada em 9 de outubro passado, na presença do vice-presidente Geraldo Alckmin.

Com investimentos iniciais de R$ 3 bilhões, a BYD vai inaugurar, simultaneamente, três linhas de produção: uma para veículos elétricos e híbridos; a segunda para montagem de baterias; e a terceira para caminhões e ônibus elétricos. Haverá também centro de pesquisa e desenvolvimento.

Em Camaçari, Wang Chuanfu lembrou ter fundado a BYD, há 28 anos, como uma “empresa chinesa de baterias e com grandes sonhos”. Foi a crescente demanda por combustíveis menos poluentes que levou a companhia a se converter em montadora.

Sua meta é audaciosa: reduzir a temperatura da Terra em 1ºC, por meio da transição de veículos de motor a combustão para veículos híbridos ou elétricos. Segundo ele, a inauguração de fábricas da BYD vai “representar a reconstrução da indústria automobilística no Brasil”, além da transformação de Camaçari no “Vale do Silício brasileiro”.

“Sonhamos que poderíamos gerar energia a partir do sol, eletrificar a rede, tornar todos os veículos eléctricos e aliviar o congestionamento”, discursou Wang. “Estamos orgulhosos de ter projetos em mais de 75 países – mas não há melhor exemplo desse compromisso do que nosso trabalho no Brasil, uma nação abençoada pela Floresta Amazônica, conhecida por sua paixão pela preservação ambiental.”

Quarta marca

A inauguração das fábricas em Camaçari está prevista para o final de 2024. Enquanto o capítulo Brasil não tem início, a BYD se expande no ranking de vendas globais. De acordo com a consultoria TrendForce, a montadora ultrapassou a Ford em agosto e já e quarta maior fabricante de automóveis no mundo. A lista é encabeçada por Toyota (9,8% do mercado mundial), Volkswagen (6,5%) e Honda (4,9%). Com as vendas de agosto, a BYD já responde por 4,8%.

Um dos trunfos da montadora é a própria China, o país que mais consome automóveis no mundo e no qual a BYD já detém 12% de participação no mercado. Nos últimos meses, sua prioridade é ganhar terreno na Europa – as exportações já estão em alta, apesar da resistência do Parlamento Europeu.

Mas, se o futuro é dos automóveis elétricos, o domínio da BYD está apenas no começo. “Um rival chinês surge no retrovisor da fabricante de carros elétricos Tesla”, sugeriu nesta segunda-feira (23) a BBC. “As ações da BYD dispararam na semana passada após a empresa anunciar que seus lucros do terceiro trimestre podem dobrar em relação ao ano passado.”

Mais do que ter ultrapassado a Tesla em produção trimestral, a BYD ajudou a China a superar o Japão no posto de maior exportadora mundial de automóveis. Sua origem como fabricante de baterias foi decisiva, já que se trata de um dos componentes mais caros dos veículos elétricos. A Tesla precisa de fornecedoras para terceirizar essa produção de bateria. A BYD, não.

A China não ficará restrita a uma única “gigante” do setor. “Até 2030, haverá entre dez e 12 grandes montadoras chinesas operando em grande escala”, afirmou ao Financial Times o analista do UBS Paul Gong. É provável que novas legislações, especialmente na Europa, tentem restringir o avanço chinês. Mas a nova ordem automotiva já está em curso.


André Cintra

Jornalista, é assessor de Comunicação da Fitmetal


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